segunda-feira, 29 de agosto de 2011

O conceito de Qi na Filosofia e Medicina Chinesa


O carácter para o Qi indica que é algo que é, ao mesmo tempo, tanto material como imaterial:
 uma parte significa “vapor”, “gás” e a outra parte significa “arroz” (sem ser cozinhado)

Isto claramente indica que o Qi pode ser rarefeito e imaterial como o vapor, e denso e material como o arroz. Também indica que o Qi é uma substância subtil (vapor) derivada de uma grosseira (arroz), como o vapor é produzido ao cozer o arroz.
O Qi é a base de todos os fenómenos no Universo e promove continuidade entre as formas materiais e as energias não-materiais.


Os filósofos consideraram que o Qi humano como um resultado da interacção do Qi do Céu e da Terra. A Medicina Chinesa dá importância à relação entre humanos e o seu ambiente e tem isso em consideração para determinar a etiologia, diagnóstico e tratamento.
Em particular, dois aspectos do Qi são especialmente relevantes na medicina:
1.       Qi está num constante estado de fluxo e em vários estados de agregação. Quando o Qi condensa, a energia transforma-se e acumula em forma física; quando o Qi é disperso, dá origem a formas mais subtis de matéria.
2.       Qi é uma energia que manifesta simultaneamente num nível físico e mental-espiritual.
De acordo com a Medicina Chinesa, existem vários tipos de Qi que afectam o corpo e a Mente.




Apesar do Qi permanecer fundamentalmente o mesmo, coloca “diferentes chapéus” em diferentes lugares e muda a sua forma de acordo com o lugar onde se encontra e quais as funções que vai ter que assumir. Por exemplo, Qi Nutritivo (Ying Qi) existe no interior do corpo. A sua função é alimentar e é mais denso que o Qi Defensivo (Wei Qi), que está no exterior e protege o corpo. Um desarranjo do Qi Nutritivo ou Defensivo dá origem a diferentes manifestações clínicas e necessitam de diferentes tipos de tratamento.



Uma circulação fraca pode resultar numa “agregação” excessiva ou “condensação” do Qi, que significa que o Qi torna-se patologicamente denso, formando caroços, massas ou tumores. Os vários estados de agregação do Qi também contam para as suas manifestações a nível simultâneo físico e emocional-menta-espiritual. O sangue no Fígado representa uma forma material e densa do Qi enquanto que a energia emocional da raiva também é uma forma de Qi.
Na Medicina Chinesa, o termo Qi é usado de duas grandes maneiras. Primeiro, indica a energia refinada produzida pelo órgãos Internos, que tem a função de alimentar o corpo e a Mente. Esta energia refinada tem várias formas, dependendo na sua localização e função. Qi colheita (Zong Qi), por exemplo, está no peito e alimenta o Coração e os Pulmões. O Qi original (Yuan Qi) está no Aquecedor Inferior e alimenta os Rins.
Em segundo, Qi indica a actividade funcional dos órgãos internos. Quando usado neste sentido, não implica uma substância refinada como em cima, mas simplesmente um complexo de actividades funcionais de qualquer órgão. Por exemplo, quando falamos em Qi-Fígado, não nos referimos à “porção” de Qi que reside no Fígado, mas sim ao complexo das actividades funcionais do Fígado, isto é, assegurar o bom fluxo do Qi.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Os cinco elementos na Medicina Chinesa


Vamos explorar os cinco elementos na Medicina Chinesa em 5 diferentes áreas: fisiologia, patologia, diagnóstico, tratamento de acupunctura e terapia dietética e fitoterapia.


Os cinco elementos na fisiologia
A relação entre os Cinco Elementos é como um modelo de relação entre os órgãos Internos e entre eles e os vários tecidos, órgãos dos sentidos, cores, cheiros, sabores e sons.


A sequência de produção e de controlo
Esta providencia o modelo básico da relação fisiológica entre os órgãos internos. Tal como “Madeira gera o fogo e é gerada pela água”, também podemos dizer que o “fígado é a mãe do coração e filho dos rins”.

Por outro lado, cada órgão é mantido por outro, de maneira que o equilíbrio se mantenha entre eles: sequência de controlo: o fígado controla o Baço; o Coração controla o Pulmão; o Baço controla os Rins; os Pulmões controlam o Fígado; e os Rins controlam o Coração.

É muito importante lembrar que na prática a sequencia acima representada entre os órgãos é apenas um modelo dos Cinco Elementos e que, como tal, pode sofrer de inconsistências, deficiências arbitrariedade. Contudo este modelo pode ser extremamente útil na prática clinica, não nos podemos descuidar das funções actuais dos órgãos e como eles interagem uns com os outros. Por outras palavras, não podemos cometer o erro de usar o modelo dos Cinco-Elementos na prática de modo isolado das funções actuais dos órgãos. Existe o perigo de podermos usar os símbolos (os cinco elementos), e não o que eles simbolizam (a interacção das funções dos órgãos internos). Quando correctamente utilizados, os símbolos podem providenciar um modelo rápido  e eficaz na prática clínica e uma guideline para o diagnóstico e tratamento.
Nem todas as inter-relações são igualmente importantes no modelo das interacções órgão-função. Por exemplo, a relação de produção entre os Rins e o Fígado tem implicações profundas na prática, enquanto a entre o Coração e o Baço são menores.
Além do mais não nos podemos esquecer que a sequência da produção e do controlo são apenas 2 modelos de relações entre os Cinco Elementos. Além destes dois, vamos abordar uma terceira sequência, a sequencia Cosmológica, relações que são diferentes da sequencia de produção. Por exemplo, na sequência de produção o Coração é a mãe do Baço, mas esta relação não tem muito significado na prática. Na sequência cosmopolita, pelo contrário, o Baço é um órgão de suporte do Coração, e isto tem mais aplicações na prática, por exemplo o Baço produz sangue, que dá casa à mente (Shen).

O Fígado é a mãe do Coração: o Fígado armazena o sangue e o sangue dá casa à mente. Se o sangue-fígado está fraco, o Coração vai sofrer; uma deficiência de sangue-fígado geralmente conduz a deficiências de sangue-Coração e ambos afectam o sono e os sonhos.
O Coração é a mãe do baço: o Qi-Coração puxa o sangue e logo ajuda a função do baço de Transporte.
O Baço é a mãe dos Pulmões: o baço providencia o Qi-nutritivo aos Pulmões onde interage com o ar para formar o Qi de encontro. É comum haver uma deficiência de ambos os Qi-pulmão e do baço.
Os Pulmões são a mãe dos Rins: o Qi-Pulmões desce para se encontrar com o Qi-Rins. Os pulmões também enviam líquidos para os Rins.
Os Rins são a mãe do Fígado: o Yin-Rim nutre Sangue-Fígado. Os Rins controlam os ossos e o Fígado os tendões; os ossos e os tendões são inseparáveis.


Também para a sequência de controlo, o “controlo” não deve ser levado à letra, uma vez que pois órgãos dão mais suporte do que se suprimem as funções uns dos outros.

O Fígado controla o Baço e o Estômago: o fígado, com o seu Qi que circula livremente, realmente ajuda o Estômago a amadurecer e desfazer a comida e o Baço a transformar e transportar. É apenas quando a sequencia de controlo perde controlo (que é chamada de “agressão”) que o fígado pode interferir e prejudicar o Estômago e o Baço.
O Coração controla os Pulmões: os Pulmões e o Coração estão intimamente ligados uma vez que ambos estão no Aquecedor Superior. O Coração governa o Sangue e os Pulmões governam o Qi; o Qi e o Sangue ajudam-se mutuamente e alimentam-se um ao outro.
O Baço controla os Rins: Tanto os Rins como o Baço transformam os Fluídos corporais. A actividade do Baço em transformar e transportar os fluidos é essencial para a transformação e excreção dos fluidos por parte dos Rins..
Os Pulmões Controlam o Fígado: neste caso, ao contrário dos outros, existe um certo elemento de “controlo” do Fígado pelos Pulmões. Os pulmões enviam o Qi para baixo, enquanto que o Fígado espalha o Qi para cima. Se o Qi-Pulmão está fraco e não consegue descer, o Qi-Fígado tem tendência a subir demasiado.
Os Rins controlam o Coração: os Rins e o Coração ajudam-se e suportam-se mutuamente. É essencial uma correcta comunicação e interacção entre os Rins e e o Coração para haver saúde. 

A sequência cosmológica
Esta sequência é geralmente negligenciada, contudo é muito importante e significativa na prática clínica, e na fisiologia dos Cinco Elementos.
A primeira referência aos 5 elementos dispunha-os da seguinte ordem: água, Fogo, Madeira, Metal e Terra. Se dermos números aos elementos vamos ter 1 para a Água 2 para o Fogo, 3 para a Madeira, 4 para o Metal e 5 para a Terra. Se adicionarmos 5 a cada um vamos ter: 6 para a Água 7 para o Fogo, 8 para a Madeira, 9 para o Metal e 10 para a Terra. O valor a somar foi % porque cinco foi associado com os fenómenos ancestrais da filosofia Chinesa, enquanto que o seis estava associado com fenómenos do céu.
O arranjo cosmológico é importante na prática clínica em muitas maneiras:

Água como a Fundação
Nesta sequencia a água é o início, a fundação dos outros Elementos. Isto corresponde bem à importância dos Rins como a fundação do Yin e do Yang, a base do Yin e do Yang de todos os outros órgãos. Pertencem à água e armazenam a Essência (Jing), mas também armazenam o Fogo do portão da Vida (Ming Men). São, portanto, a fonte da água e do Fogo, também chamado de o Yin Original e o Yang original. Deste ponto de vista a água pode ser considerada a fundação de todos os outros elementos.
Este princípio é frequentemente aplicado na prática clinica, uma vez que uma deficiência de Yin-Rim facilmente conduz a uma deficiência Yin-Fígado e Yin-Coração; e uma deficiência do Yang-Rim conduz a uma deficiência Yang-Baço e Qi-Pulmão. Além do mais, os Rins armazenam a Essência, que é o material de base do Qi e da Mente.

A relação entre Rim-Coração
O Rim e o Coração estão ligados num Axis vertical. Existe uma comunicação directa entre eles. Esta relação fundamental entre a Água e o Fogo é provavelmente equilíbrio mais importante e básico do organismo, uma vez que reflecte o equilíbrio base entre o Yin e o yang.
Os Rins governam a água e esta tem que subir para alimentar o Coração. O Coração governa o Fogo, e este tem que descer para os Rins. É uma relação de mútua assistência e alimentação.
Esta relação também reflecte  a entre a Essência e a Mente. A essência é o material base para a Mente; se a Essência é fraca, a Mente vai obrigatoriamente sofrer.
Se o Yin-Rim está deficiente, não vai chegar energia Yin suficiente ao Coração; o Yin-Coração torna-se então deficiente e dá origem a Vazio-Calor. Esta situação ´+e muito comum, especialmente nas mulheres na menopausa.


O Estômago e o baço como o centro
Na sequencia Cosmologica o papel central do Estômago e Baço como um pivot neutro é muito evidente. O Estômago e o Baço são a Raiz do Qi Pós-Celeste e a origem do Qi e do Sangue; logo eles alimentam todos os outros órgãos e naturalmente ocupam uma posição central no corpo humano. Contudo a sequência cosmológica reflecte com precisão a importância do Qi Pré-Celeste (até agora como água é a Fundação), e o Qi Pós-Celeste (até agora como a Terra é o centro).
É por esta razão que quando se tonifica o Estômago e o baço, indirectamente estamos a tonificar todos os outros órgãos.

O Estômago e o Baço como suporte do Coração
Ao analgizarmos a sequência verificamos que a Terra está entre o Fogo e a Água e é o suporte do Fogo. Logo, o Estômago e o Baço, são na prática, os principais suportes do Coração. Em todos os casos de deficiência crónica do Qi-Coração Ou Sangue-Coração, e em particular quando o ritmo do coração está irregular, é essencial tonificar o Estômago. O Baço também produz sangue do qual o Coração depende e que armazena a Mente.

O papel da Terra no ciclo das Estações
Quando a Terra é colocada no centro, o seu papel em relação às estações é aparente. A Terra na verdade não pertence a nenhuma Estação e é um pivot neutro no qual o ciclo sazonal se desdobra.
No final de cada estação, a energia volta para a Terra para regenerar. No coirpo humano, isto reforça a importância do Estômago e do Baço como o Centro. Logo o Estômago e o Baço devem ser tonificados no final de cada estação, particularmente no final do Inverno, para regenerar a energia.

O axis vertical como símbolo de Essência-Qi-Mente (Jing-Qi-Shen)
O axis vertical muito importante de Água, Terra e Fogo pode ser visto como um símbolo de Essência-Qi-Mente, que é o complexo das energias físicas e mentais dos humanos. A Essência pertence aos Rins, O Qi deriva do Estômago e baço e a Mente está atesourada no Coração.

O sistema de correspondências na fisiologia dos Cinco-Elementos
O sistema de correspondência dos Cinco-Elementos tem muita aplicação na fisiologia humana. De acordo com este esquema, cada elemento engloba numerosos fenómenos no Universo e no corpo humano que são, de algum modo, “atribuídos” aquele Elemento particular.
 O sistema de correspondência dos Cinco-Elementos providencia um modelo compreensivo e clinicamente útil de relação entre os órgãos e os vários tecidos, órgãos dos  sentidos, etc… e também entre vários fenómenos externos como o clima e as estações.

Estação: a estação correspondente à Madeira é a Primavera. Na prática, é muito comum para um desequilíbrio do fígado agravar-se na Primavera. Isto é provavelmente porque a Energia do Fígado sobe e está muito activa; na Primavera, o yang sobe e a energia de crescimento ruptura para afrente e pode agravar um desequilíbrio no Fígado, e causar um Qi-Fígado subir excessivamente.
Direcção: um vento do este facilmente afecta o Fígado. Na prática, alguns pacientes que sofrem de dores de cabeça crónicas ou dores de pescoço, por vezes é notório que tem uma dor de cabeça sempre que o vento de Este sopra.
Cor: a cor da cara num desequilíbrio do fígado é geralmente acinzentada.
Sabor: uma pequena quantidade de sabor ácido na dieta é benéfico para o Fígado; e um excesso é prejudicial. Além do mais, um excesso de sabor ácido pode danificar o baço (ciclo agressão) e ser benéfico para os Pulmões.
Clima: o vento afecta claramente aqueles que sofrem de desequilíbrio do fígado, causando dores de cabeça e rigidez no pescoço.
Tecidos: o fígado também humedece e alimenta os tendões.
Emoções: a raiva é a emoção que está ligada à Madeira e Fígado. A pessoa cuja a energia do Fígado estagna ou sobe rebeldemente pode estar propensa a acessos de raiva.
Som: uma pessoa que sofre de desequilíbrios do Fígado está mais propensa a gritar (de raiva).


Os cinco elementos na patologia
Na relação dos Cinco-Elementos, apenas 2 das sequencia possíveis se aplicam aos casos patológicos: são as sequencias de Agressão e Contra-dominação.


A sequência de Agressão
Esta ocorre quando a relação de Controlo se torna excessiva.
O fígado agride o Estômago e Baço: se o Qi-Fígado estagna, “invade” tanto o Estômago, prejudicando a sua função de digerir , como o Baço, prejudicando a sua função de transformar e transportar. Em particular, quando o Qi-Fígado invade o Estômago, evita que o Qi-Estômago desça, o que causa náuseas, e evita que o Qi-Baço ascenda, o que causa diarreias.
O Coração Agride os Pulmões: o Fogo-Coração pode secar os fluidos dos  Pulmões e causar deficiência Yin-pulmão.
O baço agride o Rim: quando o Baço retém a humidade, isto pode obstruir a função dos Rins de transformar e excretar os fluídos.
Os pulmões agridem o Fígado: o Calor-Pulmão ou calor-Fleuma pode ser transmitido ao fígado.
Os Rins Agridem o Coração: se o Yin-Rim está deficiente, forma-se o Vazio-Calor e pode ser transmitido ao Coração.

A sequência de Contra-dominação
O Fígado insulta o Pulmão: o Qi-Fígado pode estagnar na subida e obstruir o peito e a respiração. O fogo-Fígado também pode obstruir o Qi-pulmão descendente e causar asma.
O Coração insulta os Rins: Fogo-Coração pode ir para baixo até aos rins e causar deficiência Yin-Rim.